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A ORALIDADE – CONEXÃO ENTRE O CONTO E QUEM CONTA

Muitas vezes quando conversamos com alguém da terceira idade nos surpreendemos com colocações como:

“Vocês estudam pra contar histórias? ”

“Tem que fazer exercício pra falar? ”

“E tem aula para contar um causo? ”

E por assim vão às exclamações que estão baseadas em uma verdade natural e primitiva: a oralidade está inerente ao ser humano, dependemos dela para sobreviver e conviver.

Contamos histórias da hora que levantamos até a hora de dormir. É a conexão entre memória, texto, estilo oral e comunidade que nos convidam a viver em sociedade e transmitir mensagens.

E mesmo assim a cada dia contamos pouco e ouvimos menos ainda. Afinal temos a escrita, a leitura, a literatura e assim “frequentemente, desprezou-se este especial caudal expressivo [o da tradição oral], em virtude da letra impressa: é importante, porém destacar o valor da voz.” (REYZÁBAL, 1993, p.259).

Contar histórias é bem menos frequente, principalmente nas escolas, do que ler histórias. E mais que isso a importância dada à literatura ultrapassa em todas as instancias a importância da oralidade como caminho de expressão e transmissão de conhecimento.

Esquecemos sim do conceito primitivo de sociedade oral, ou seja, o fato de estarmos inseridos e um ou mais grupos orais que através de suas relações “(…) define suas experiências, sua imaginação criadora e seus comentários para a sociedade. (…) Cada gênero se caracteriza por um conjunto de relações entre seus elementos formais, seus registros temáticos e seus usos sociais possíveis.” (BenAmos,1974,  p.275) e negligenciamos nossa capacidade expressiva de comunicação, criatividade e memória. 

Afinal sociedades ágrafas, não letradas, não fazem uso da escrita e mantem suas tradições e histórias de geração em geração através da oralidade, algumas até os dias de hoje. Pode parecer inusitado, mas a escrita enquanto forma de comunicação privilegiada pela humanidade é uma invenção recente que data de apenas 5000 anos. Isso visto de forma descontextualizada pode parecer muito tempo. Não é, no entanto, quando comparamos o tempo de existência dos sistemas de escrita com o de nossa espécie: o homo sapiens tem aproximadamente um milhão de anos, ou seja, apenas 0,5% de nossa existência como espécie se dá em concomitância coma escrita (GRAFF, 1990)

Olhamos para uma prática narrativa e nos sentimos impotentes, presos ao papel, incapazes de nos jogarmos neste universo que flui e faz com que nós percamos nossa zona de conforto e nos tornemos agentes da realização. E não estamos aqui negligenciando a literatura ou comparando quem pode ser melhor. Longe disso. Existem horas para se ler histórias e horas para conta-las. O importante é saber que se tratam de estilos completamente diferentes e que nossa relação com o conto, com a história também é diferente a cada um.

Mas e então como se estabelece essa relação diferenciada, que parece tão natural, mas que anda cristalizada? 

O espaço que se abre na prática da narração oral é o da arte da palavra falada. Assim como a literatura não é apenas comunicação escrita, narração oral é aqui entendida como “oratura”: um espaço de recriação simbólica e estética, que ganha sentido como troca entre o artista e o público, a exemplo de outras artes, numa relação direta (…) poderemos pensar talvez que a oratura estaria para a fala como a literatura está para a escrita. (BELLO, Sergio, p.159, Baús e Chaves da Narrativa)

Uma história só passa realmente a existir no plano da oralidade quando quem decide contá-la estabelece uma relação com ela. O contador de histórias descobre por aptidão e sensibilidade as histórias que realmente são suas, aquelas que querem sair de sua boca e serem contadas. Que passam a ser de sua “autoria” oral visto que seu gesto, seu olhar, sua oralidade e oratura colorem este contar. È o ritual de evocar, de dar voz a algo que já aconteceu.

E como naquele dia em que lemos um livro tão bom, assistimos a um filme maravilhoso ou nos aconteceu um fato marcante e tudo que queremos é sair contando para todo mundo. Pois o acontecido, a história está pulando da nossa boca e pedindo para ser contada, compartilhada por ai. Estamos transbordados dela e precisamos repartir. È o que podemos chamar de saturação de uma ideia. Mas uma saturação positiva, afinal como nos diz Estella Ortiz “Os contos tradicionais estão vivos, como as rochas e os rios evoluem lentamente (…)e se o caminho se faz ao andar, as histórias se fazem ao contar.”(Baús e Chaves, pg.106). E é assim que se estabelece um caminho diferente para o contar, vou procurar uma história que eu goste, que transborde em mim para que assim eu esteja tão contaminado dela, que possa transmiti-la ao outro exercitando com autenticidade e generosidade o exercício da oralidade.

REYZÁBAL, Maria Victoria.  A comunicação oral e sua didática. Bauru:EDUSC, 1999.

GIRARDELLO, Gilka (org.). Baús e Chaves da narração de Histórias. Florianópolis: SESC – Santa Catarina, 2004. GRAFF, Harvey J. O mito do analfabetismo. Teoria e educação. Porto Alegre, n.2, 1990.

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